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Do vinhedo à taça: como a tecnologia está transformando o mundo do vinho

Sensores acompanham condições ambientais. Satélites observam diferenças dentro de um mesmo vinhedo. Drones podem produzir imagens das plantas. Sistemas de geoprocessamento transformam essas informações em mapas. Equipamentos permitem acompanhar processos dentro da vinícola com cada vez mais precisão. E a inteligência artificial começa a participar da interpretação dessa enorme quantidade de informações. Pode parecer uma ruptura com um produto tão ligado à tradição.

Do vinhedo à taça: como a tecnologia está transformando o mundo do vinho

Durante milhares de anos, produzir vinho foi essencialmente uma combinação de observação da natureza, experiência e trabalho humano.

Esses elementos continuam fundamentais.

Mas hoje existe um novo componente percorrendo os vinhedos e as vinícolas: dados.

Sensores acompanham condições ambientais. Satélites observam diferenças dentro de um mesmo vinhedo. Drones podem produzir imagens das plantas. Sistemas de geoprocessamento transformam essas informações em mapas. Equipamentos permitem acompanhar processos dentro da vinícola com cada vez mais precisão.

E a inteligência artificial começa a participar da interpretação dessa enorme quantidade de informações.

Pode parecer uma ruptura com um produto tão ligado à tradição.

Na realidade, a tecnologia está permitindo enxergar com maior precisão algo que viticultores conhecem há séculos: um vinhedo nunca é completamente uniforme.

A tecnologia começa antes da uva

Uma das áreas mais importantes dessa transformação é a chamada viticultura de precisão.

A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) define viticultura de precisão como uma abordagem de gestão das operações no campo baseada em ferramentas de informação e tecnologia, utilizando diferentes fontes de dados do vinhedo para auxiliar decisões específicas para cada local.

Em outras palavras, em vez de necessariamente tratar todo o vinhedo como uma área homogênea, torna-se possível identificar diferenças existentes dentro da própria parcela.

Isso é importante porque duas videiras separadas por algumas dezenas ou centenas de metros podem estar submetidas a condições diferentes.

Profundidade e composição do solo, disponibilidade de água, relevo, exposição solar, vigor e microclima podem variar espacialmente.

A tecnologia ajuda a transformar essas diferenças em informações mensuráveis.

Sensores no vinhedo

Sensores meteorológicos e de solo estão entre as ferramentas utilizadas na viticultura de precisão.

Dependendo do sistema empregado, podem ser monitorados parâmetros como temperatura, umidade, precipitação e condições relacionadas ao solo.

Esses dados podem auxiliar o produtor na tomada de decisões de manejo.

A grande mudança está na quantidade e na continuidade das informações disponíveis.

Uma observação pontual mostra a situação daquele momento.

Uma rede de sensores pode criar uma série histórica, permitindo acompanhar como determinadas condições se modificam durante dias, semanas ou durante todo o ciclo da videira.

A tecnologia, portanto, não substitui a observação do viticultor.

Ela acrescenta novas camadas de informação a essa observação.

O vinhedo visto do espaço

Outra ferramenta importante é o sensoriamento remoto.

A OIV inclui imagens obtidas por satélites, aeronaves e drones entre as tecnologias que podem ser empregadas na viticultura de precisão.

A análise dessas imagens permite estudar a variabilidade espacial existente no vinhedo.

Índices de vegetação derivados de dados espectrais, por exemplo, podem ajudar a identificar diferenças no desenvolvimento vegetativo das plantas.

Isso permite criar mapas mostrando áreas com comportamentos distintos dentro de uma mesma propriedade.

Mas existe uma ressalva importante.

Uma imagem não substitui a avaliação agronômica.

Uma alteração detectada remotamente indica uma diferença que precisa ser interpretada. A causa pode estar relacionada a diversos fatores e normalmente exige conhecimento do local e verificações em campo.

É a combinação entre tecnologia e conhecimento agronômico que transforma imagens em decisões úteis.

Drones são mais do que belas imagens aéreas

Drones se tornaram bastante populares na agricultura, mas seu uso técnico vai muito além da produção de fotografias.

Equipados com sensores adequados, podem participar de sistemas de sensoriamento remoto capazes de registrar informações sobre a vegetação.

A vantagem está na possibilidade de obter imagens de alta resolução espacial e acompanhar áreas específicas.

Ainda assim, drones são apenas uma das ferramentas disponíveis.

Satélites, sensores terrestres, equipamentos embarcados, estações meteorológicas, GNSS e Sistemas de Informação Geográfica podem trabalhar de forma complementar.

A própria OIV cita esse conjunto de tecnologias ao estabelecer os princípios gerais da viticultura de precisão.

Um vinhedo pode ter diferentes zonas de manejo

É aqui que a tecnologia começa a produzir uma mudança interessante na forma de enxergar o terroir.

Imagine um grande vinhedo.

Tradicionalmente, as uvas de toda aquela parcela poderiam ser manejadas e colhidas seguindo decisões relativamente uniformes.

Mas os dados podem revelar zonas com comportamentos diferentes.

Uma publicação da Embrapa de 2024 sobre viticultura de precisão na produção de vinhos de colheita de inverno discute justamente a delimitação de zonas de manejo, estabelecidas a partir de zonas homogêneas relacionadas a atributos do solo e das plantas.

Essas divisões podem permitir práticas diferenciadas, incluindo a colheita seletiva de uvas destinadas à vinificação.

Isso abre uma possibilidade fascinante.

Em vez de simplesmente produzir um vinho representando uma grande parcela, uma vinícola pode estudar se determinadas subáreas apresentam características suficientemente distintas para justificar manejo, colheita ou vinificação separados.

Isso já é estudado no Brasil?

Sim.

E há bastante tempo.

A Embrapa desenvolve pesquisas relacionadas à agricultura e à viticultura de precisão em diferentes regiões brasileiras.

No Rio Grande do Sul, trabalhos já utilizaram georreferenciamento, análises de solo, índices de vegetação, condutividade elétrica do solo, medições relacionadas à clorofila, composição do mosto e outros parâmetros para estudar a variabilidade existente em vinhedos.

A Embrapa Uva e Vinho, sediada em Bento Gonçalves, possui inclusive um Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento.

Entre suas atividades estão pesquisas relacionadas à viticultura, estudos de solos e rochas por caracterização espectral, desenvolvimento de ferramentas ligadas à agricultura de precisão, zoneamento e trabalhos associados às Indicações Geográficas.

Portanto, viticultura digital não é apenas uma tendência observada na Europa ou nos Estados Unidos.

Existe pesquisa brasileira trabalhando diretamente nessa área.

E dentro da vinícola?

A revolução tecnológica não termina quando a uva deixa o vinhedo.

Uma vinícola moderna pode gerar uma quantidade enorme de informações durante a elaboração.

Temperatura, densidade, composição química, evolução da fermentação e diferentes parâmetros enológicos podem ser acompanhados durante o processo produtivo.

Controle de temperatura, por exemplo, é fundamental em diversas etapas da vinificação moderna.

A fermentação alcoólica é realizada por leveduras, que convertem açúcares principalmente em etanol e dióxido de carbono, além de produzir uma série de outros compostos.

A temperatura influencia a atividade microbiológica e diferentes aspectos do processo.

Sistemas modernos permitem acompanhar e controlar esse ambiente com muito mais precisão do que seria possível historicamente.

Isso não significa que exista uma "temperatura perfeita" universal.

Brancos, tintos, espumantes, diferentes variedades e diferentes objetivos enológicos podem exigir estratégias distintas.

A tecnologia oferece controle.

A decisão continua sendo enológica.

Enologia de precisão

A própria Embrapa utiliza o conceito de enologia de precisão.

Em publicação dedicada ao assunto, pesquisadores discutem a utilização conjunta da viticultura e da enologia de precisão para identificar parcelas ou subparcelas contrastantes, segmentar uvas e elaborar vinhos diferentes.

É uma evolução interessante do conceito.

Primeiro, identificam-se diferenças dentro do vinhedo.

Depois, determinadas uvas podem ser colhidas separadamente.

Finalmente, essas parcelas podem receber estratégias específicas de vinificação.

O objetivo não precisa ser tornar todos os vinhos iguais.

Pode ser justamente o contrário: identificar e preservar diferenças.

Inteligência artificial chega ao vinho

Inteligência artificial também aparece entre as tendências digitais estudadas pela OIV para o setor vitivinícola.

Mas é importante separar aplicação real de marketing.

IA não significa necessariamente um robô decidindo sozinho como produzir um Cabernet Sauvignon.

Algoritmos podem ser utilizados para analisar grandes volumes de dados e encontrar padrões difíceis de perceber manualmente.

Quando combinados com dados meteorológicos, imagens, informações históricas e medições realizadas no vinhedo, modelos computacionais podem auxiliar análises e processos de tomada de decisão.

A qualidade do resultado, porém, depende da qualidade dos dados e do modelo utilizado.

IA não transforma dados ruins em conhecimento perfeito.

Robôs no vinhedo?

Também já fazem parte dessa conversa.

A OIV inclui sistemas robóticos entre as ferramentas associadas à viticultura de precisão.

A automação agrícola pode auxiliar diferentes operações e vem sendo objeto de pesquisa e desenvolvimento internacional.

Mas existe uma distância importante entre demonstrações experimentais, equipamentos comercialmente disponíveis e adoção ampla.

O fato de uma tecnologia existir não significa que todas as vinícolas estejam utilizando-a.

Custo, topografia, tamanho da propriedade, disponibilidade de mão de obra, infraestrutura e retorno econômico influenciam diretamente sua adoção.

Em um vinhedo íngreme e irregular, por exemplo, os desafios de mecanização são muito diferentes daqueles encontrados em uma grande área relativamente plana.

Blockchain e rastreabilidade

Outra tecnologia frequentemente associada ao futuro do vinho é blockchain.

A OIV inclui blockchain entre as tendências digitais analisadas para a cadeia vitivinícola, juntamente com inteligência artificial, robótica, imagens de satélite e Internet das Coisas.

Uma possível aplicação está na rastreabilidade.

Informações relacionadas à produção e movimentação de um produto podem ser registradas ao longo da cadeia.

No entanto, blockchain possui uma limitação conceitual importante que muitas vezes desaparece do discurso comercial:

um registro imutável não garante que a informação originalmente inserida seja verdadeira.

A tecnologia pode aumentar a integridade do histórico de registros, mas ainda são necessários mecanismos confiáveis para garantir a qualidade das informações que entram no sistema.

Por isso, blockchain não deve ser tratado como uma solução mágica contra falsificação.

A garrafa também está ficando digital

QR Codes e identificadores digitais permitem conectar uma garrafa física a uma quantidade de informações que jamais caberia em um rótulo tradicional.

O consumidor pode acessar dados sobre produtor, região, safra, composição, serviço, origem e outras informações disponibilizadas pela vinícola.

Essa digitalização cria uma espécie de extensão virtual do rótulo.

Também pode permitir que produtores atualizem determinados conteúdos sem transformar a embalagem em um manual técnico.

É uma mudança discreta, mas importante na maneira como vinho e consumidor se comunicam.

Tecnologia pode ajudar a compreender melhor o terroir

À primeira vista, tecnologia e terroir parecem conceitos opostos.

Um representa sensores, computadores e dados.

O outro evoca solo, clima, tradição e conhecimento humano.

Na realidade, eles podem ser complementares.

Um dos maiores benefícios das ferramentas de precisão é justamente a possibilidade de estudar a variabilidade espacial existente nos vinhedos.

A Embrapa destaca que diferenças de composição, mineralogia, profundidade e disponibilidade hídrica do solo, além de altitude, relevo, orientação, exposição solar e outros fatores, podem produzir variações dentro de uma mesma parcela.

Mapear essas diferenças permite investigar o vinhedo em uma escala muito mais detalhada.

A tecnologia não cria o terroir.

Ela pode ajudar a enxergá-lo.

O enólogo vai ser substituído pela inteligência artificial?

É uma conclusão para a qual as evidências disponíveis não dão suporte.

Produzir vinho envolve decisões agronômicas, microbiológicas, químicas, sensoriais, econômicas e culturais.

Um sistema pode identificar padrões em milhares de dados.

Mas definir o estilo que uma vinícola deseja produzir envolve escolhas humanas.

Um enólogo pode decidir colher determinada parcela em um momento específico porque busca um perfil diferente.

Pode escolher uma estratégia de extração mais delicada.

Pode decidir que determinada barrica não combina com aquele vinho.

Pode provar dois lotes quimicamente semelhantes e perceber que sensorialmente contam histórias diferentes.

Tecnologia fornece instrumentos.

O profissional decide como utilizá-los.

Tradição e tecnologia não precisam ser inimigas

Talvez essa seja a parte mais interessante dessa transformação.

Durante séculos, bons viticultores aprenderam a reconhecer pequenas diferenças dentro de seus vinhedos.

Sabiam onde a água permanecia por mais tempo.

Onde as plantas amadureciam primeiro.

Onde o vento era mais intenso.

Onde determinada parcela produzia uvas diferentes.

Sensores, satélites, geoprocessamento e análise de dados não tornam esse conhecimento inútil.

Eles permitem medir, registrar e comparar fenômenos que antes dependiam quase exclusivamente da experiência acumulada.

O futuro do vinho provavelmente não será uma disputa entre tradição e tecnologia.

Será a combinação das duas.

Porque, no final, nenhuma inteligência artificial consegue mudar uma realidade fundamental da vitivinicultura:

todo grande vinho começa em um lugar real, em uma safra real e com uvas reais.

A tecnologia apenas está nos permitindo observar esse lugar com uma precisão que as gerações anteriores nunca tiveram.

Fontes e referências

OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho. Definition and General Principles on Precision Viticulture – Resolution OIV-VITI 593-2019. Documento que estabelece a definição internacional e apresenta tecnologias como sensores, sensoriamento remoto, drones, GNSS, SIG e robótica.

OIV. Digital Trends Applied to the Vine and Wine Sector. Relatório sobre transformação digital na cadeia vitivinícola, incluindo inteligência artificial, robótica, imagens de satélite, Internet das Coisas e blockchain.

Embrapa. Bassoi, L. H. et al. Viticultura de precisão na produção de vinhos de colheita de inverno. 2024. Trabalho sobre zonas de manejo, variabilidade espacial e colheita seletiva.

Embrapa Uva e Vinho. Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento. Pesquisas envolvendo imagens de satélite, SIG, caracterização espectral, agricultura de precisão, zoneamento e viticultura.

Embrapa. Pereira, G. E. et al. Viticultura de precisão e enologia de precisão: ferramentas e principais parâmetros para a produção de uvas, elaboração e valorização de vinhos com tipicidades distintas em cada terroir.

Embrapa Uva e Vinho. Miele, A.; Flores, C. A.; Filippini Alba, J. M. Status atual da pesquisa de viticultura de precisão no Rio Grande do Sul: primeiros resultados da UP Uva para Vinho.

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